A aeronave retornou mais uma vez da busca no mar no mesmo momento que Ellen desafiava o vento frio junto ao muro lateral da rampa de São Francisco, controlando o tiritar do corpo pela firmeza das mãos em torno do microfone. Aos vinte e cinco anos, era a mais bela repórter do canal R7, mas sempre nas situações mais sórdidas. Ela balançou a cabeça ao notar dezenas de corpos enfileirados no cais. Não quero essa cena, disse, hoje não... Meu Deus! O que houve aqui? Exatamente no dia que combinara com sua mãe: vou levá-la ao apartamento que quero comprar. Entretanto, era a sua profissão, mais que isso, uma missão – levar informação a milhões de pessoas na região de São Francisco. As tragédias eram atenuadas por aquela voz rouca maviosa. O dia só se completava para os telespectadores depois do jornal da noite com mais uma reportagem de Ellen Verdi.
A repórter tentou uma nesga de informação junto a um dos poucos sobreviventes resgatados na primeira busca: como o senhor conseguiu escapar do naufrágio? Eu vi uma luz, um reflexo... acho que da lua, disse Adamastor, tentando explicar a sua salvação. Ellen indagou, há mais sobreviventes?, por favor, ao vivo para os telespectadores de São Francisco. Os vôos rasantes da aeronave de busca inquietavam a repórter. Ela mal podia ouvir o entrevistado. Qual o seu nome?, perguntou Ellen, novamente, como o senhor conseguiu se salvar? O sobrevivente respondeu, eu sou Joãozinho, era meia noite quando a lancha tombou na pororoca e consegui escapar por uma janela. Joãozinho, na verdade, foi salvo com a ajuda de Adamastor, de setenta anos de idade – um verdadeiro herói – que conseguiu ajudar uma dezena de pessoas, na maioria idosas. Apesar da situação cruel enfrentada por aquela gente e lugar, Adamastor e Joãozinho não estavam sozinhos, restaram Luis Roberto, Fabiano, Simeão e Casemiro, todos com a mesma média de idade. Eles continuariam a arriscar suas vidas todos os meses, naquele percurso por mar e rio incluindo a pororoca.
Ellen sempre em grandes cidades, achou fantástico como Adamastor descreveu a vila da Rosa Santa. A história que ele contou trouxera-lhe emoções e sentimentos fortes, um desejo incipiente se sobrepôs à tragédia. Esses velhinhos têm uma força sobrenatural, murmurou Ellen, os sortilégios não lhes tiram a vontade de superação. Era verdade: pois nem a dor estampada nos corpos frios, cobertos pelos restos de algodãozinhos rotos da pororoca, dos que se salvaram, acabava a esperança daquela gente. Os sentimentos estavam apenas restritos, mas assim mesmo determinavam vidas. Ellen estava inclinada a passar por esta certeza. Só a reportagem urbana não a levaria a lugar algum e aquilo tudo que ouvira era misterioso. Eu nem sei como fazer para convencer o meu diretor, murmurou novamente, mas quero fazer uma reportagem in loco com esses velhinhos da Rosa Santa. Ela sempre quis conhecer os arredores de São Francisco, os mais inusitados, sobretudo, e, além disso, estava inclinada a ajudar aquela gente que estava com os seus direitos diminuídos.
Os seus cabelos longos, borgonha escuro, estavam bagunçados pelo vento frio que vinha do mar; Os olhos de um azul-safira claros como um límpido lago estavam nublados. O vento gélido tocava sua pele branca, nevada, brilhante e dava um ar profético àquela manhã. Estava cercada por eventos naturais de tal modo que não conseguia definir o trajeto de volta e nem percebeu que estava sem contato com a rede R7, mas logo foi avisada do vácuo na transmissão. Ellen indagou, virando-se para o assistente, você não se esqueceu de cargar as baterias?! O microfone falhou de vez.
Ela olhou mais uma vez para os corpos; os rostos, apesar de pálidos, davam impressão de ternura mais do que o normal. A dor e o sofrimento imperava, e ela encontrou ali um começo de uma história para ser contada. Os pensamentos se voltaram para Deus, entrementes, quando no vácuo Ele se manifesta em relevo. Ainda assim, aquela poderia ser a sua história profissional e pretendia mostrar com um jornalismo cativante para o resto do mundo um mundo distinto. Antes de se retirar, por alguns segundos, desviou-se do assunto; quis conhecer mais aqueles velhinhos sobreviventes e indagou outra vez sobre a Rosa Santa. Um lugar distante que agora estava ao seu alcance. Enquanto mergulhava em tantos sonhos e previsões, Adamastor olhava-a com ternura. Ela sorriu ao encerrar a conversa. Em seguida, quedou, pela última vez, em frente aos cadáveres, sentiu um aperto no coração ao ver a solidão dos que se foram.









