18/10/08

Apresentação


O helicóptero sobrevoava próximo aos corpos estendidos no cais, balançando o que restava dos algodãozinhos rotos, sujos de barro da pororoca. A busca incipiente obrigava vôo rasante da aeronave, pois as ambulâncias já estavam prontas para qualquer sinal de sobrevida. A multidão também se aglomerava próximo aos velhinhos ali estendidos, não para buscar notícias de parentes, posto que estes eram moradores das cercanias e naquele momento não havia ninguém para chorar por eles.

A aeronave retornou mais uma vez da busca no mar no mesmo momento que Ellen desafiava o vento frio junto ao muro lateral da rampa de São Francisco, controlando o tiritar do corpo pela firmeza das mãos em torno do microfone. Aos vinte e cinco anos, era a mais bela repórter do canal R7, mas sempre nas situações mais sórdidas. Ela balançou a cabeça ao notar dezenas de corpos enfileirados no cais. Não quero essa cena, disse, hoje não... Meu Deus! O que houve aqui? Exatamente no dia que combinara com sua mãe: vou levá-la ao apartamento que quero comprar. Entretanto, era a sua profissão, mais que isso, uma missão – levar informação a milhões de pessoas na região de São Francisco. As tragédias eram atenuadas por aquela voz rouca maviosa. O dia só se completava para os telespectadores depois do jornal da noite com mais uma reportagem de Ellen Verdi.

A repórter tentou uma nesga de informação junto a um dos poucos sobreviventes resgatados na primeira busca: como o senhor conseguiu escapar do naufrágio? Eu vi uma luz, um reflexo... acho que da lua, disse Adamastor, tentando explicar a sua salvação. Ellen indagou, há mais sobreviventes?, por favor, ao vivo para os telespectadores de São Francisco. Os vôos rasantes da aeronave de busca inquietavam a repórter. Ela mal podia ouvir o entrevistado. Qual o seu nome?, perguntou Ellen, novamente, como o senhor conseguiu se salvar? O sobrevivente respondeu, eu sou Joãozinho, era meia noite quando a lancha tombou na pororoca e consegui escapar por uma janela. Joãozinho, na verdade, foi salvo com a ajuda de Adamastor, de setenta anos de idade – um verdadeiro herói – que conseguiu ajudar uma dezena de pessoas, na maioria idosas. Apesar da situação cruel enfrentada por aquela gente e lugar, Adamastor e Joãozinho não estavam sozinhos, restaram Luis Roberto, Fabiano, Simeão e Casemiro, todos com a mesma média de idade. Eles continuariam a arriscar suas vidas todos os meses, naquele percurso por mar e rio incluindo a pororoca.

Ellen sempre em grandes cidades, achou fantástico como Adamastor descreveu a vila da Rosa Santa. A história que ele contou trouxera-lhe emoções e sentimentos fortes, um desejo incipiente se sobrepôs à tragédia. Esses velhinhos têm uma força sobrenatural, murmurou Ellen, os sortilégios não lhes tiram a vontade de superação. Era verdade: pois nem a dor estampada nos corpos frios, cobertos pelos restos de algodãozinhos rotos da pororoca, dos que se salvaram, acabava a esperança daquela gente. Os sentimentos estavam apenas restritos, mas assim mesmo determinavam vidas. Ellen estava inclinada a passar por esta certeza. Só a reportagem urbana não a levaria a lugar algum e aquilo tudo que ouvira era misterioso. Eu nem sei como fazer para convencer o meu diretor, murmurou novamente, mas quero fazer uma reportagem in loco com esses velhinhos da Rosa Santa. Ela sempre quis conhecer os arredores de São Francisco, os mais inusitados, sobretudo, e, além disso, estava inclinada a ajudar aquela gente que estava com os seus direitos diminuídos.

Os seus cabelos longos, borgonha escuro, estavam bagunçados pelo vento frio que vinha do mar; Os olhos de um azul-safira claros como um límpido lago estavam nublados. O vento gélido tocava sua pele branca, nevada, brilhante e dava um ar profético àquela manhã. Estava cercada por eventos naturais de tal modo que não conseguia definir o trajeto de volta e nem percebeu que estava sem contato com a rede R7, mas logo foi avisada do vácuo na transmissão. Ellen indagou, virando-se para o assistente, você não se esqueceu de cargar as baterias?! O microfone falhou de vez.

Ela olhou mais uma vez para os corpos; os rostos, apesar de pálidos, davam impressão de ternura mais do que o normal. A dor e o sofrimento imperava, e ela encontrou ali um começo de uma história para ser contada. Os pensamentos se voltaram para Deus, entrementes, quando no vácuo Ele se manifesta em relevo. Ainda assim, aquela poderia ser a sua história profissional e pretendia mostrar com um jornalismo cativante para o resto do mundo um mundo distinto. Antes de se retirar, por alguns segundos, desviou-se do assunto; quis conhecer mais aqueles velhinhos sobreviventes e indagou outra vez sobre a Rosa Santa. Um lugar distante que agora estava ao seu alcance. Enquanto mergulhava em tantos sonhos e previsões, Adamastor olhava-a com ternura. Ela sorriu ao encerrar a conversa. Em seguida, quedou, pela última vez, em frente aos cadáveres, sentiu um aperto no coração ao ver a solidão dos que se foram.

Capítulo I


Vaduca falou daquele lugar com tanta fé e entusiasmo que as pessoas foram se concentrando ao redor do monte, bem no centro vigorou aquele roseiral com rosas bem vermelhas, e a povoação logo se tornou uma vila - a vila da Rosa Santa. A saga dos velhinhos sujos de barro iniciou-se ali, onde todos os lugares têm nomes de santo. A Rosa Santa foi o que mais cresceu em povoação. O primeiro a chegar ali foi o velho Adamastor. A terra fértil e os recursos da floresta atraíram outros lavradores. Vaduca ficou ainda mais impressionado com o lugar depois que viu uma jovem apreciando as rosas vermelhas. Ela tinha os cabelos cor de fogo, usava-os presos, soltou-os, e ele pode ver que era uma cabeleira lisa e longa.

No início pensou ser um encantamento da floresta mais densa. Tratar-se-ia de Cunhã Porã oriunda de alguma tribo da Amazônia?, indagou-se inquieto. Em seguida a jovem caminhou pela sombra, esquivando-se do sol do meio-dia. Logo soube que se tratava de uma repórter. Era Ellen Verdi, a maior repórter da Região de São Francisco. Ela queria saber como se formou a vila, pois precisava de elementos para basear a reportagem. Assim se aproximou de Vaduca. A natureza está preservada aqui, Vaduca exclamou, existem angelins, jequitibás, paus-d'arco, oitis, paus-santos, copaíbas, ipês, baraúnas, jueranas, maçarandubas, louros e canelas, arvoredo a sumir de vista. Em toda a extensão da floresta, o Rio Caxias supre todos os lugares circunvizinhos, adornado pelas vitórias-régias e samambaias.


Eu quero saber mais sobre os aposentados que se salvaram no naufrágio, disse Ellen, anotando tudo num caderno em espiral. Vaduca respondeu, é aqui na Rosa Santa e cercanias que tem a maior parte dos aposentados que vão todos os meses a São Francisco, e continuou, eles andam vários quilômetros a pés e só depois embarcam nas lanchas. Ellen percebeu que o comércio de São Francisco estava sustentado pelos velhinhos daquele lugar. Eram aposentados (maioria) e pensionistas. Uma renda que não havia outrora. Eles compravam de tudo: uma rede, um violãozinho, um maracá, dezenas de pães e bolos. A ida e, conseqüentemente, a volta não eram fáceis, contudo. O único meio de transporte era fluvial. Os velhinhos se apinhavam nas lanchas: dezenas de redes entrelaçadas por cima; por baixo, muitas pessoas no assoalho. No dia do acidente foi mais uma viagem mensal. O mais assustador ainda está por vir?!, resmungou o velho Adamastor. Ele estava se referindo a pororoca - era quando as águas do Atlântico Norte se misturavam às águas do rio Caxias. Luís Roberto, segurando-se ao mará para embarcar, retrucou: hoje o vento está soprando ao viés, compadre! A viagem pode ser difícil. Logo atrás, enfileirando-se para subir à lancha estavam: Fabiano, Casemiro e Simeão. Dentro da embarcação já estavam deitadinhas em suas redes, Crescência, Gertrudes, Aniceta e tantos outros. Dessa vez morreram vinte e oito velhinhos. Os netos que não acompanhavam os seus aposentados aguardavam a volta, ávidos por um presente.


Ellen depois de anotar todos os dizeres de Vaduva procurou descontrair com a movimentação da festa de Santa Clara. Primeiro foi observar a colheita que estava sendo realizada para enfeitar o mastro do arraial. Ela achou interessante como eles plantavam e colhiam. Adamastor fincou, com a ajuda dos outros, um mourão bem no centro do terreno. Assim o local era usado para planejar as tarefas e também para depositar a colheita. Depois todos conforme concordados dividiam a produção segundo a necessidade de cada participante da labuta. O que eles chamavam de partilha: um sublime valor em cada produto colhido. Foi Adamastor que teve a idéia em torno do comum. O que parecia uma simples semente tornava-se um constructo de amor ao próximo, pois havia uma união de fato.

Ellen chamou, Adamastor! Conte-me como surgiu a idéia da partilha? Adamastor sorriu e respondeu: o lugar é bonito por demais, moça, e eu quero vê-lo sempre preservado. Essa foi a melhor maneira que encontrei de conscientizar nossa gente. Ela ponderou que florescia também nesse gesto o evangelho, já que antes de iniciar a lida liam uma passagem bíblica. Eles compreendiam que aqueles que compartilham os dons com os seus semelhantes empenham-se para a concretização da missão de Jesus na terra. Assim cada um deixou nascer em si o evangelho revelador de Cristo.


À noite, a vilazinha já estava enfeitada para a festa. A capelinha, pintadinha de azul, sentia a ausência da padroeira. Havia um grande alvoroço por conta do sumiço da santa. Mas era tudo proposital: o sacristão escolhia uma das casas para esconder a imagem. Assim somente ele e o dono da casa sabiam do local. Tudo no mais absoluto sigilo. E a gritaria começava. Os devotos corriam de um lado para o outro na tentativa de resgatar a santa. Uns após outros, investigavam nas vizinhanças e depois se juntavam para formar o inquérito. Adamastor e Fabiano lideravam a turma de busca. Repentinamente surgiu uma convicção. Foi Aniceta que roubou a santa!, gritou Adamastor, eu sei que foi ela! Fabiano concordou: a nossa padroeira tá na casa de Aniceta. Vamos lá gente!, Simeão convidou o tropel. Todos rumaram para a residência da indigitada. Ela estava na frente da casa e logo que viu a multidão ficou pálida como se tudo fosse verdade. E para completar Adamastor ainda gritou: Aniceta é ladrona de santa! Eles amarraram velha Aniceta, com fita, e levaram-na presa. A santa finalmente rumou em procissão até a capelinha. Tudo tramado com exatidão.

Capítulo II

Os velhinhos da Rosa Santa não tinham uma estrada digna e isso fazia com que se apresentassem sempre sujos de barro. Ellen recordou que uma vez, em São Francisco, ouviu uma jovem fazer referência ao aspecto de vida desses aposentados que se encontravam numa praça. Por que esses velhinhos andam sujos de barros?, indagou a estudante. O guarda de trânsito respondeu, eles vêm de lugares longínquos e mal-servidos de estradas. Apesar de todas as dificuldades, eles eram possuidores de muita sabedoria.

Adamastor, apesar do aspecto rude, era o mais viajado dos velhinhos da Rosa Santa. Ele já tinha passado uma temporada em Roma, após a segunda guerra mundial. Ellen quis saber sobre as aventuras dele no estrangeiro. Não era preciso indagar, todavia, ele gostava de contar esse tempo. Estava um caos, minha filha, disse Adamastor, nem parecia a magnífica Roma dos Césares. A cidade estava dividida: uma parte (a maior) estava destruída, assim mesmo as pessoas lutavam para reconstruir; a outra, onde estavam os lugares sagrados, ficou intocável. Um milagre diante da barbárie por que passou a Europa. Apesar das dificuldades do pós-guerra, os romanos recuperaram o seu patrimônio. É um povo que ama o místico. Primeiro passei pela parte destruída, era inverno, as pessoas andavam apressadamente pelas ruas próximas ao mediterrâneo, e pude ver as mães afastando os seus filhos do fumo que brotava das esquinas e praças. Mendigos e desocupados se viciavam com uísque, tabaco e outras drogas; outros carregavam na camisa dobrada junto ao corpo dezenas de garrafas de cerveja. Adamastor fez uma pausa e depois continuou: na parte da cidade que ficara preservada, mas não livre da desordem, observei uma cena curiosa. Acima do átrio de uma das casas havia duas pessoas penduradas em uma corda esticada horizontalmente a uma altura de dez metros. Não sei o que os dois tinham feito. Centenas de pessoas observavam aquela cena singular. Subitamente, aproximaram-se dois algozes e cortaram as cordas nas extremidades com o objetivo de derrubar os homens que estavam pendurados. Entretanto os homens não caíram, ficaram ali flutuando como se alguma coisa os sustentassem. Eu fiquei muito intrigado, porque não conseguia compreender como isso acontecera. E voltando-se para as pessoas que estavam ali exclamei: isso não é possível! É contra a lei da gravidade! Um senhor de cabelos brancos, longos, e barba desalinhada retrucou: meu filho, isso aconteceu por que Deus fez o homem para pensar coisas importantes. Depois compreendi que ali estava o poder de Deus em ação, contrariando todas as leis da física, um poder que jamais será desafiado, pois é justo, e os que com Deus caminham estão sob sua proteção absoluta.

Ellen compreendeu que a Rosa Santa era um exemplo a ser seguido por outros povos e lugares. Havia aspectos diferentes em relação a outras cidades, mesmo nos arredores, como religiosidade, música, arte e tradição. Era verdade dizer que uma base de princípios conviviais sustentava a vida de todos da vila. Os que não estavam alinhados com a conformidade, poucos, pareciam obsoletos. Nem precisava alertá-los que eles estavam aquém do comum pregado pela maioria dos habitantes. Eles sabiam. Cultivavam meios danosos. Vaduca contou para a repórter que pôde constatar isso várias vezes. Disse ele, uma ocasião, ao entrar na mercearia de Augusto D’Altino, percebi de soslaio que um ancião estava deixando o balcão de atendimento com sua sacola de compras; ao chegar mais perto para indagar sobre o preço de uma foice, vi uma nota de cem contos de réis no chão. Avisei o negociante que pulou subitamente por cima do balcão, pegou a nota e enfiou-a no bolso. Fiquei intrigado com aquela atitude. O dinheiro era do ancião que deixou exatamente aquela posição onde a nota foi encontrada. Por que Augusto D’Altino tomou aquela atitude? Fiquei ali por um momento me perguntando.

Capítulo III


A vista mais espetacular da Rosa Santa era a montanha do Lajeado, pois se encontrava cercada de arvoredos que no outono adornavam sua base com folhas e flores de todas as cores. Vaduca apreciava a montanha e via ali um lugar sagrado à oração, como outrora. Na realidade, ele insistiu na caminhada para o lajeado e às vezes fazia com duas ou três pessoas. Isso aconteceu inicialmente; depois outros moradores viram o resultado da oração e também seguiram juntos. Vaduca escolheu aquela elevação, depois de um pântano, por ser o local mais apropriado para celebrar um dia semanal de oração. Todos os sábados se reuniam homens e mulheres de fé e seguiam: primeiro vinha o obstáculo do caminho pantanoso quase intrafegável. Em certos pontos era preciso seguir nos galhos das mangueiras e dos cajueiros, passando de uma árvore a outra, até ultrapassar o lameiro. Mesmo com toda dificuldade, homens, mulheres, crianças, ninguém desistia da romaria. Quando todos já estavam no local e descansados da longa caminhada era a hora da oração. Antes, Vaduca fazia uma explanação dos institutos imprescindíveis para que as bênçãos de Deus acontecessem. A esperança, a fé e o amor fazia parte da abertura.

Aniceta estava seguindo pela primeira vez à montanha; Ellen também acompanhava do mesmo modo. Nesse dia ocorreu a Vaduca indagar sobre a fé necessária ao romeiro. Ele perguntou: vocês sabem o que é a fé? Como ninguém fez menção de responder, Aniceta exclamou, a fé é o café! Algumas risadas ocorreram, mas logo Vaduca as interrompeu: Aniceta está certa, gente! A resposta não é desprovida de exatidão, é só uma questão de interpretar, o nosso povo se acostumou a tomar o café de manhã para ficar fortalecido e começar bem o dia; e, espiritualmente, para começar bem o dia é necessária a fé. Não só no dia de subir a montanha, mas todos os dias, além de tomar o café, devemos nos abastecer com a fé. Eles tiveram uma certeza: as palavras de Aniceta estavam agora fazendo sentido. Ela havia chegado com humildade para ouvir tantas definições a cerca da palavra de Deus. Muitos falaram e explicaram ao longo da palestra, mas logo houve o silêncio, justamente na hora de explicar a fé, e foi a velha Aniceta que definiu com simplicidade e sabedoria como os homens devem ser confiantes.

Ellen ficou admirada com a concentração na montanha, com os instrumentos que aquele povo utilizava para superar os problemas, com a sabedoria surgindo da simplicidade. Seria aquela montanha, cheia de rosas e cercada de árvores, mágica? A evocação de Deus por essa gente é fiel, pensou, por isso acontecem os milagres. Ela aprendeu a fazer e não fazer certas coisas com o temor de que Deus castigava de alguma forma. Isso tudo é um modelo heurístico pregado nas religiões. Ali na montanha, entretanto, havia os instrumentos necessários para se crer numa relação mais humana com Deus. Qualquer pessoa de bom senso compreenderia o povo da Rosa Santa.

A vinda depois da oração era contida pela escuridão, mas nada mais gratificante e animador do que a certeza da oração realizada. As dificuldades do caminho pantanoso eram desprezadas, as pessoas contavam histórias, uma brisa suave deslizava nos cabelos dando a sensação de muitos anjos presentes e o caminho se transformava numa estrada de luz. A peregrinação até a montanha do Lajeado já fazia parte da vida na Rosa Santa. E Vaduca organizava a romaria com todo esmero, uns ajudando os outros, para que todos participassem. As preocupações desapareciam depois da montanha. Era noite, mas parecia um novo dia.

Capítulo IV




Na estação árida, quando as condições da estrada de barro eram amenizadas pelo fim das chuvas, a vilazinha recebia a visita de vendedores ambulantes e alguns aventureiros. Por conta dessa movimentação, um ou outro morador se arriscava a realizar uma festa. As radiolas provenientes de São Francisco só tocavam reggae - uma novidade para a Rosa Santa. Os velhinhos não se intimidaram, contudo. Ases na improvisação, eles dançavam o ritmo jamaicano a passos largos; Adamastor, nem se fala, abusava da destreza; e não eram só os homens, estavam também nesse grupo, Crescência, Gertrudes e Aniceta. Vaduca no início ficou inquieto com o assanhamento de Adamastor. Indagou-se, quem ensinou esse velhinho dançar reggae? Devia dançar uma música de seu tempo. Depois compreendeu que tudo faz parte do desenrolar da vida. Era uma maneira de diversão para a vila pacata, aonde o progresso chegava lentamente. Automóveis, não havia; lojas, também não; algumas bicicletas adornavam as ruelas de barro.

Casemiro foi quem comprou a primeira bicicleta. Aquilo lhe parecia o cavalo de rodas que imaginou quando criança. Um homem nascido no campo, ali nos arredores, uma espécie de Leonardo da Vinci da Rosa Santa, que desde menino vivia às voltas com idéias geniais. Uma delas surgiu ainda na sua infância: era o desejo de construir um cavalo de pau com rodas. Apesar de muitas idéias, faltava-lhe a engenharia, imediatamente. Esse meio de transporte (se é que tinha condição de transportar alguém) seria tracionado com o movimento das pernas do cavaleiro, uma coisa bárbara para aqueles tempo e lugar. É claro que na sua infância, no campo onde morava, não havia como realizar o invento; porém a idéia jamais saiu da cabeça. Ele, em apenas uma coisa, não seguiu o método de Leonardo da Vinci: não colocou a idéia no pergaminho ante a falta de engenharia no campo para construir o engendro.

Alguns amigos seus achavam aquilo sem fundamento, mas não evidenciavam o contrário. Casemiro respondia, nem sempre quem realiza algum invento é o primeiro a ter a idéia, originariamente. Ellen ao saber da história reforçou: contam que alguns inventores deixaram diversos rascunhos que mais tarde se transformaram em inventos espetaculares. Vaduca, contudo, sabia que a invenção da bicicleta era de época mais remota quando os velhinhos da Rosa Santa ainda nem existiam. Mesmo assim não quis desfazer aquele sonho de primeiro idealizador do cavalo de rodas, pois aquilo lhe soava como percalço diante dos percalços da vida e, apesar de fantasiosa, era uma proeza bem caracterizada.

Casemiro ficou admirado quando viu uma bicicleta pela primeira vez. Ele exclamou: é o meu cavalo de rodas! Exatamente como planejei. O vendedor ficou intrigado e perguntou: o que o senhor disse? Nada não, Casemiro disfarçou. Assim não perdeu tempo, tratou logo de comprar o veículo e andava montado na engenhoca tocando o gado da propriedade e por onde passava se mostrava garboso como se fosse o inventor do engendro.

Antes da bicicleta, ele se deslocava de casa a pé para buscar e levar o seu gado à campina. Apenas duas cabeças, mas que valiam por um rebanho inteiro, tamanho o aspecto da junta. Aquelas não eram reses de corte; eram de destino quedo. O caminho, cheio de aventura, era uma maravilha, alguns trechos áridos, outros, alagados; em toda a extensão era ladeado de flores campestres e de nascentes que desciam das cordilheiras distantes. No meio da planície, ele tinha armado um telheiro - aquilo era a sua fazenda incipiente. Apesar de poucos recursos financeiros, sobrava na propriedade uma beleza natural composta de água cristalina, pássaros, lírios, rosas e avencas. Apesar de ultimamente andar desconsolado com a vida, o que mais reluzia ao redor era a sua solidariedade. Ainda mais que o sol de verão que sugava toda a água que tinha restado no caminho. Ele havia perdido a mulher e uma filha na viagem que a lancha tombou na pororoca. Aquela tragédia lhe havia enclausurado o sorriso. Essa minha mania de matar as pessoas em mim que ficam cada vez mais vivas, resmungou ele. Vaduca aconselhou-lhe o desabafo: rumine as lágrimas que nunca foram choradas, meu velho, isso que está preso aí dentro. Não existia outra forma de dizer abracadabra.

Capítulo V

Os dias foram passando e cada vez mais Casemiro entristecia. Não mais subia a montanha para orar com os outros devotos e nem participava das festas e dos saraus beneficentes promovidos pelo velho Lili. A caminhada para levar e trazer o gado deixou de ser diária. Ele se isolou sob o telheiro da campina. Os amigos o viam uma vez por mês na hora de viajar a São Francisco para apanhar o numerário. A viagem agora era feita por uma estrada de barro que cortava toda a extensão da mata. O pau-de-arara era o único meio de transporte. Apesar da poeira, era melhor do que enfrentar a pororoca. Aquela maldita pororoca que quase lhe levara toda família. Eram perdas indeléveis. O sofrimento se fazia maior por que ele estava na viagem e nada pôde fazer para salvar a vida da mulher e de uma filha. Lembra-se que estava perto de retirar a filha quando a lancha rolou novamente na vaga, atirando-o para bem longe. Restaram apenas os dois filhos menores que tinham ficado na casa de sua sogra.

Diante de toda situação, Casemiro perdeu a fé. Entretanto, ainda lhe restou a ternura, pois amava os seus filhos. A partir daí muitas coisas se dissiparam: havia se esquecido de orar todas as noites; de fazer as promessas como aprendera com os seus pais; e de subir a montanha do Lajeado, logo ele que fora um dos primeiros a seguir Vaduca. Ele resmungava a toda hora, será que fiz alguma coisa que desagradou a Deus. Os filhos também ficavam tristes diante da sua angústia. O tempo foi passando e o amor pelos filhos foi crescendo cada vez mais, mesmo sem a mulher e a filha. Um belo dia, eles conversaram sobre a vida e o caos incipiente. Naquele momento, todos juntos resolveram se unir para enfrentar a tristeza. De repente, o velho Casemiro se lembrou dum trecho bíblico que Vaduca havia lido numa das romarias à montanha do Lajeado: “O reino de Deus é como um grão de mostarda que, quando se semeia, é a menor de todas as sementes que há na terra; mas, tendo sido semeado, cresce e faz-se a maior de todas as hortaliças e cria grandes ramos, de tal modo que as aves do céu podem aninhar-se à sua sombra”. Esse grão de mostarda está aqui, resmungou ele, batendo no peito. Casemiro entendeu que os homens também são árvores e o amor que estava naquela família era como a semente de mostarda que floresce para uma nova vida. Em seguida, viajou no pensamento e ao retornar olhou para os haveres. Havia tantas coisas lindas ao redor e não precisava do martírio que ele mesmo estava se impondo.

Vinte minutos depois, rumou para depois do telheiro, uma milha, onde havia uma fontainha de água cristalina. Aquele local enviava-o à mocidade. Olhou para o Cristal que refletia a sua imagem. Sentiu vontade de se atirar na pequena fonte, devido às pedras pontiagudas e a pouca profundidade, o que lhe valeria uma lesão no cocuruto da cabeça. Ele não se conteve, apanhou uma cuia, e começou a retirar a água: um banho que lhe renovou a vida. Estava deveras agradecido a Deus.

O amor trouxera de volta o sorriso de Casemiro; a fé e a esperança também voltaram. Os fractais que foram se desprendendo no caminho estavam regressos, envolvidos numa nova fase de vida. Ele só precisava voltar à rotina de outrora: a caminhada para levar e trazer o gado; participar das festas e dos saraus beneficentes; e voltar a freqüentar a montanha do Lajeado para as orações, pois a sua ausência era notada por todos da Rosa Santa.

Capítulo VI

Nada supera a sabedoria dos velhinhos da Rosa Santa, exclamava Vaduca, constantemente. Não era só no conhecimento de coisas lógicas que se destacavam, histórias fantásticas também norteavam o imaginário daquela gente. O jovem Vaduca precisou juntar os enredos de casos incríveis que eram contados, tamanho o seu questionamento, para depois trazer ao lume toda a verdade. O que lhe deu mais trabalho foi o embuste que Fabiano espalhou na vilazinha: o velho Luís Roberto virava um bode preto.

O caso se deu por uma estranha coincidência. A velha Aniceta era proprietária de um bode da cor do ébano; o único dessa cor em toda a Rosa Santa. O animal passou vários dias desaparecido. Nessa ocasião, Fabiano como de costume acordou bem cedinho e foi até o quintal; Luis Roberto também fez o mesmo. Os quintais dos dois vizinhos eram abertos, pois não havia cerca nos limites dos terrenos. Fabiano ficou algum instante, espantado, observando um bode que apareceu ali, estranhamente, e nem se deu conta que o vizinho também estava por ali; enquanto Luís Roberto observava-o, sem ser notado. Mais tarde se encontraram na frente da casa e Luis Roberto indagou: Vizinho! Não me viste no quintal bem cedinho? Não. Eu não vi, respondeu Fabiano, intrigado. Estava bem pertinho de ti, insistiu Luís Roberto. Entrementes que Fabiano ficou a matutar consigo, acho que ele é o bode preto... Após isso, espalhou pela região que o vizinho virava um bode preto.

Luís Roberto sentia que algo estava acontecendo. Fazia algum tempo que os seus conterrâneos olhavam-no desconfiados. Certa manhã, quando passava em frente a um campo de bola, escutou dois meninos cochicharem: olha, aquele é o velhinho que vira bode. Ele não hesitou, chegou mais perto e indagou: meninos, o que vocês cochicharam aí? Contudo, os garotos emudeceram. Ele vivia intrigado com os olhares e murmúrios de tanta gente.

Vaduca nunca acreditou na história fantasiosa. Assim decidiu desfazer a injustiça cometida por Fabiano contra o velho Luís Roberto. Primeiro investigou o caso que Fabiano jurara ter presenciado; depois, procurou a velha Aniceta e confirmou que o seu bode preto havia desaparecido justamente na mesma ocasião; e por fim convocou todos para desfazer o mexerico.

Capítulo VII

Além da Bíblia, Vaduca leva à montanha um caderno com os seus apontamentos a cerca da palavra de Deus. Abre-o e ler para os companheiros de caminhada: “aquele que retêm a palavra de Jesus Cristo a fertilize, faça-a florescer, para que seja concluída a obra divina e assim se realize o destino sublime da humanidade. Esta é a razão da promessa e que a conserva perfeita por geração trás geração. Eis o cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo. Um humilde cordeirinho levado ao calvário para resgatar o novo tempo do Senhor. Ele que se põe à aldrava, livra-nos da palavra vã e reforça a nossa eira. De outro jeito, quem levantará nossa vinha? A palavra do Senhor é ouro puro, conhecimento e sabedoria, síntese da consciência natural, grande feito de Deus para os homens e mulheres, capaz de proteger contra todo mal e ruína”.

Havia um motivo a mais naquela tarde, eram os últimos dias de Ellen na Rosa Santa, e todos combinaram levar algumas dúzias de mistos-frios, sucos e frutas. Os pães foram preparados por Gertrudes; o queijo e o presunto ofertados por Casemiro; as frutas e os sucos ficaram por conta dos outros integrantes da comitiva. Ellen não conseguia conter a emoção, as lágrimas mostravam isso. Não tardava deixar a Rosa Santa. Ela sabia. Voltaria um dia para rever aquela gente, entrementes. Uma coisa ainda a confortava: havia anotado tudo que aprendera com o povo da Rosa Santa e não era pouco - pois eles enfrentavam os problemas de frente e quase sempre com um sorriso no rosto. Jamais se viu naquela gente um olhar de esguelha para o mundo. Ali da montanha, Ellen Verdi revolve o último olhar sobre a vilazinha e murmura: o mundo precisa conhecer os velhinhos sujos de barro.

Casemiro olha ao redor da montanha e avista os prados verdes da Rosa Santa florescendo depois do outono, em seguida pede para fazer uma oração de despedida para a conviva. Ele sabia que tinha passado por um período de provação, mas estava agora renascido pela fé, a partir do amor. Novamente como um carneirinho deslizando pelo céu e ajudando os seus semelhantes. Aquela moça que veio de São Francisco, desde o primeiro contato em meio à tragédia na pororoca, havia mostrado sensibilidade para com os velhinhos da Rosa Santa. Todos sabiam que ela partindo poderia fazer mais pela povoação.

Assim, a repórter partiu para São Francisco; aqueles dias foram as férias mais proveitosas de sua vida. Ela aprendera com os velhinhos da Rosa Santa que Deus se apresenta com mais força no vácuo.

Capítulo VIII



Havia uma tristeza estampada nos rostos dos velhinhos sujos de barro, não era por causa das dificuldades que enfrentavam, por conta da partida da repórter do canal R7, Ellen Verdi. Ninguém podia imaginar que em apenas dois meses fosse tão marcante a sua permanência na vilazinha; e tão sentida a partida. Contudo, ela prometera que logo na primeira aparição televisiva se reportaria sobre os habitantes da Rosa Santa.

A fragrância da moça ainda teimava em permanecer no olfato de Vaduca. Ele se recordava bem do primeiro contato que tiveram, ali, perto do roseiral, quando caminhava de cabeça baixa, admirando as rosas vermelhas e repentinamente viu os cabelos de Ellen refletindo a mesma nuance como pétalas. Não podia ser real, pensou imediatamente. Ela, com a experiência jornalística, previu a inquietação do moço com a sua aproximação; depois estudou-o com indagações esquadrinhadoras. No início, Vaduca respondeu com monossílabos; depois, vendo as boas intenções da repórter, deu respostas mais detalhadas.

Logo os velhinhos sujos de barro se deram conta que já possuíam televisão e podiam acompanhar o trabalho da bela repórter do canal R7. Assim, planejaram assistir o primeiro programa, desde a chegada de Ellen a São Francisco, no terraço da casa de Adamastor; pois o local era amplo e ventilado e, ademais, se fundia com a varanda que limitava toda a extensão do quintal cheio de árvores frutíferas e flores. Todos queriam tomar parte na preparação da sessão: Casemiro prometeu levar o queijo; Luís Roberto, o presunto; os pães preparados por Gertrudes e Aniceta. Igualmente todos contribuiriam para o lanche, mistos-frios e refrigerantes, durante o jornal da noite.

O noticiário do canal R7 entrou no ar. A bela Ellen Verdi saudou os telespectadores com a sua voz maviosa e dessa vez fez questão declamar todos os lugares ao redor de São Francisco, inclusive a vila da Rosa Santa. Os velhinhos acomodados, atentos, no terraço de Adamastor aplaudiram a saudação da apresentadora, e a primeira reportagem era justamente sobre a vida na Rosa Santa.

Capítulo IX

Aguarde...