Mensagem

18/10/08

Capítulo I


Vaduca falou daquele lugar com tanta fé e entusiasmo que as pessoas foram se concentrando ao redor do monte, bem no centro vigorou aquele roseiral com rosas bem vermelhas, e a povoação logo se tornou uma vila - a vila da Rosa Santa. A saga dos velhinhos sujos de barro iniciou-se ali, onde todos os lugares têm nomes de santo. A Rosa Santa foi o que mais cresceu em povoação. O primeiro a chegar ali foi o velho Adamastor. A terra fértil e os recursos da floresta atraíram outros lavradores. Vaduca ficou ainda mais impressionado com o lugar depois que viu uma jovem apreciando as rosas vermelhas. Ela tinha os cabelos cor de fogo, usava-os presos, soltou-os, e ele pode ver que era uma cabeleira lisa e longa.

No início pensou ser um encantamento da floresta mais densa. Tratar-se-ia de Cunhã Porã oriunda de alguma tribo da Amazônia?, indagou-se inquieto. Em seguida a jovem caminhou pela sombra, esquivando-se do sol do meio-dia. Logo soube que se tratava de uma repórter. Era Ellen Verdi, a maior repórter da Região de São Francisco. Ela queria saber como se formou a vila, pois precisava de elementos para basear a reportagem. Assim se aproximou de Vaduca. A natureza está preservada aqui, Vaduca exclamou, existem angelins, jequitibás, paus-d'arco, oitis, paus-santos, copaíbas, ipês, baraúnas, jueranas, maçarandubas, louros e canelas, arvoredo a sumir de vista. Em toda a extensão da floresta, o Rio Caxias supre todos os lugares circunvizinhos, adornado pelas vitórias-régias e samambaias.


Eu quero saber mais sobre os aposentados que se salvaram no naufrágio, disse Ellen, anotando tudo num caderno em espiral. Vaduca respondeu, é aqui na Rosa Santa e cercanias que tem a maior parte dos aposentados que vão todos os meses a São Francisco, e continuou, eles andam vários quilômetros a pés e só depois embarcam nas lanchas. Ellen percebeu que o comércio de São Francisco estava sustentado pelos velhinhos daquele lugar. Eram aposentados (maioria) e pensionistas. Uma renda que não havia outrora. Eles compravam de tudo: uma rede, um violãozinho, um maracá, dezenas de pães e bolos. A ida e, conseqüentemente, a volta não eram fáceis, contudo. O único meio de transporte era fluvial. Os velhinhos se apinhavam nas lanchas: dezenas de redes entrelaçadas por cima; por baixo, muitas pessoas no assoalho. No dia do acidente foi mais uma viagem mensal. O mais assustador ainda está por vir?!, resmungou o velho Adamastor. Ele estava se referindo a pororoca - era quando as águas do Atlântico Norte se misturavam às águas do rio Caxias. Luís Roberto, segurando-se ao mará para embarcar, retrucou: hoje o vento está soprando ao viés, compadre! A viagem pode ser difícil. Logo atrás, enfileirando-se para subir à lancha estavam: Fabiano, Casemiro e Simeão. Dentro da embarcação já estavam deitadinhas em suas redes, Crescência, Gertrudes, Aniceta e tantos outros. Dessa vez morreram vinte e oito velhinhos. Os netos que não acompanhavam os seus aposentados aguardavam a volta, ávidos por um presente.


Ellen depois de anotar todos os dizeres de Vaduva procurou descontrair com a movimentação da festa de Santa Clara. Primeiro foi observar a colheita que estava sendo realizada para enfeitar o mastro do arraial. Ela achou interessante como eles plantavam e colhiam. Adamastor fincou, com a ajuda dos outros, um mourão bem no centro do terreno. Assim o local era usado para planejar as tarefas e também para depositar a colheita. Depois todos conforme concordados dividiam a produção segundo a necessidade de cada participante da labuta. O que eles chamavam de partilha: um sublime valor em cada produto colhido. Foi Adamastor que teve a idéia em torno do comum. O que parecia uma simples semente tornava-se um constructo de amor ao próximo, pois havia uma união de fato.

Ellen chamou, Adamastor! Conte-me como surgiu a idéia da partilha? Adamastor sorriu e respondeu: o lugar é bonito por demais, moça, e eu quero vê-lo sempre preservado. Essa foi a melhor maneira que encontrei de conscientizar nossa gente. Ela ponderou que florescia também nesse gesto o evangelho, já que antes de iniciar a lida liam uma passagem bíblica. Eles compreendiam que aqueles que compartilham os dons com os seus semelhantes empenham-se para a concretização da missão de Jesus na terra. Assim cada um deixou nascer em si o evangelho revelador de Cristo.


À noite, a vilazinha já estava enfeitada para a festa. A capelinha, pintadinha de azul, sentia a ausência da padroeira. Havia um grande alvoroço por conta do sumiço da santa. Mas era tudo proposital: o sacristão escolhia uma das casas para esconder a imagem. Assim somente ele e o dono da casa sabiam do local. Tudo no mais absoluto sigilo. E a gritaria começava. Os devotos corriam de um lado para o outro na tentativa de resgatar a santa. Uns após outros, investigavam nas vizinhanças e depois se juntavam para formar o inquérito. Adamastor e Fabiano lideravam a turma de busca. Repentinamente surgiu uma convicção. Foi Aniceta que roubou a santa!, gritou Adamastor, eu sei que foi ela! Fabiano concordou: a nossa padroeira tá na casa de Aniceta. Vamos lá gente!, Simeão convidou o tropel. Todos rumaram para a residência da indigitada. Ela estava na frente da casa e logo que viu a multidão ficou pálida como se tudo fosse verdade. E para completar Adamastor ainda gritou: Aniceta é ladrona de santa! Eles amarraram velha Aniceta, com fita, e levaram-na presa. A santa finalmente rumou em procissão até a capelinha. Tudo tramado com exatidão.

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